Este mundo, este novo mundo inundado por fios e tomadas, e agora, por dispositivos wireless. O que acham vocês disto? - Indagou o senhor de barba e alma fartas.
Passados uns segundos, um aluno sentado ao fundo da sala, respondeu - É algo necessário. Embora o professor tenha dito isso num tom depreciativo, não seria possível ter uma vida tão confortável como a temos sem estes dispositivos - Após esta resposta, os olhos da sala voltaram-se para o senhor de idade, que se apoiava pensativamente numa bengala.
-É um bom ponto. Contudo, será este conforto algo de positivo?
-Claro, professor. Sem ele, teríamos de caçar para sobreviver; e a própria esperança média de vida seria muito inferior.
-Não me expressei bem - Afagou lentamente a barba - Será bom nestas quantidades?
- Foi apenas "com estas quantidades" que eu, e todos os que deste lado estão, vivemos. Não conheço outra forma.
-Eu compreendo isso. Daí eu estar aqui: uma pessoa que carrega mais alguns anos - Deslocou-se para a primeira fila de mesas e sentou-se numa que estava vazia - Com as tecnologias não vem apenas conforto. Somos obrigados a viver ao ritmo das máquinas; mas elas não precisam de comer, beber e ir à casa de banho. Somos obrigados a estar acordados vinte e quatro horas; mesmo estando a dormir, sonhamos com tecnologias ou com algo que delas deriva.
"Quando estamos acordados, a nossa mente, a nossa imaginação está gasta e embaciada devido a excesso de estímulo tecnológico."
"Ao surfarmos no mar, tiramos a água dos ouvidos através de uma descompressão ou de algo do género. Ao surfarmos na internet, isso não se sucede pois não somos nós que surfamos, mas o nosso cérebro e este, não tem ouvidos nem seios perinasais - Temos o cérebro afogado por ecrãs.
-O que afirma é que estamos a desgastar a nossa imaginação , a nossa mente, devido a tecnologias?
-A única coisa que afirmo e que quero que tenham presente é o seguinte: passem menos tempo à frente de ecrãs, mesmo que vos pareça necessário, pois esse é um dos efeitos secundários. Terão a mente mais limpa; vocês não dizem que os vidros já estão limpos quando ainda estão molhados, pois não?
-Não!- Ecoou a turma.
-Então sequem a vossa mente. Observem, cheirem, toquem, oiçam e saboreiem a vida porque ela, ao contrário dos ecrãs negros, transparecer-vos-à a verdade e não um reflexo.
Todos se levantaram após ouvirem aquele discurso de palavras gastas, mas nutridas, pela vida.
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