Mark ouviu alguém a bater à porta e abriu-a.
-Então, esqueceste-te das tuas chaves? - Indagou, com os dentes a espreitar por entre os lábios.
Vanessa entrou em casa e deixou cair as tilintantes chaves em cima da pequena madeira em forma de mesa - Não. Eu queria que tu me abrisses a porta.
Mark fechou-a e, ao voltar-se, a sua expressão endurecera - E se estivesse a meio de algo?
-Interrompias esse "algo".
-E se fosse "algo" muito importante.
-Não há "algo" mais importante que eu.
Os lábios dele delinearam um ligeiro, quase imperceptível, sorriso - E se fosse "algo" com alguém?
Vanessa girou pelos calcanhares e seguiu em frente, dirigindo-se à cozinha - Eu teria tocado à campainha. Quando abrisses a porta, não me encontrarias. Eu estaria a investigar esse "algo" mais de perto e a tentar decidir o que fazer com o que dele restasse.
-Matá-la-ias?
-Isso interessa?
-Não particularmente.
-E de forma geral?
-É mau para o negócio.
Ela pousou o saco das compras, produzindo um som vibrante de vidro, e fitou-o - Que negócio?
-O meu.
-E se tu já cá não estivesses?
Mark soltou uma breve mas sonora gargalhada - Também me eliminarias?
-Sem pestanejar.
-Mentirosa.
Vanessa vestiu a sua face de provocação - Achas?
Os lábios deles encontravam-se à distância de um dedo anelar.
Mark beijou-a apaixonadamente - Tenho a certeza. - Sussurrou.
O som da campainha ecoou de novo por entre as paredes da casa - Vais tu, ou eu?
-Os dois. - Respondeu ela, decidida.
Ao abrir a porta, viu dois homens de pesado porte, com o mesmo corte de cabelo, feições acutilantes muito semelhantes e de uniforme cinza, à entrada - Mark e Vanessa Rayder?
-Sim, somos nós.
-São acusados de fuga ao Sistema e de traírem a Ordem.
-Com que fundamentos? - Indagou ela, incrédula.
Os soldados eram reactivos e colocaram ambos uma mão no coldre - Quando nos acompanharem, esclareceremos quaisquer dúvidas que tenham.
Mark colocou-se à frente de Vanessa - Para onde, exactamente?
O polícia que havia estado calado até ali, disse - Para a esquadra dos Colts.
-Não me parece. - Confrontou-os ela, enquanto se colocava em frente a Mark, muito próxima dos agentes.
Este Blogue contém histórias de tamanho e temas variáveis para me treinar e para partilhar algumas ideias
quinta-feira, 8 de março de 2018
quarta-feira, 28 de fevereiro de 2018
Passado tenta enterrar o Presente
-Fátima, queria-lhe pedir para não vasculhar todos os cantos e recantos desta casa.
-Sim, senhora, mas encontro tanta sujidade.
-Nas minhas jóias?
-Sim, senhora, algumas estavam sujas.
-Está a gozar?
-Não, senhora, estou a falar a verdade.
A patroa contraiu os lábios um contra o outro, fazendo com que o inferior quase se tornasse da cor do gesso - Até logo!
-Até logo, senhora!
Nunca me passaria pela cabeça roubar aos patrões, seria uma ofensa à ajuda que me têm oferecido. Eu disse que aceitava não limpar todos os cantos desta casa, contudo, é-me impossível saber que existe sujidade em algum lugar e não a limpar.
A sujidade é o passado e esse é o inimigo. Se deixarmos que aquilo que nos envolve esteja coberto de passado, rapidamente nos alojará sob uma lápide; engolidos por tudo o que aconteceu ou que podia ter acontecido. Eu prefiro cobrir as coisas de futuro; olhar para elas e ver o quão limpas ficarão, ver o futuro que se tornará presente.
Porque sem futuro não há presente e sem passado não há futuro.
-Sim, senhora, mas encontro tanta sujidade.
-Nas minhas jóias?
-Sim, senhora, algumas estavam sujas.
-Está a gozar?
-Não, senhora, estou a falar a verdade.
A patroa contraiu os lábios um contra o outro, fazendo com que o inferior quase se tornasse da cor do gesso - Até logo!
-Até logo, senhora!
Nunca me passaria pela cabeça roubar aos patrões, seria uma ofensa à ajuda que me têm oferecido. Eu disse que aceitava não limpar todos os cantos desta casa, contudo, é-me impossível saber que existe sujidade em algum lugar e não a limpar.
A sujidade é o passado e esse é o inimigo. Se deixarmos que aquilo que nos envolve esteja coberto de passado, rapidamente nos alojará sob uma lápide; engolidos por tudo o que aconteceu ou que podia ter acontecido. Eu prefiro cobrir as coisas de futuro; olhar para elas e ver o quão limpas ficarão, ver o futuro que se tornará presente.
Porque sem futuro não há presente e sem passado não há futuro.
sexta-feira, 23 de fevereiro de 2018
Darrion Jones Inspetor- II
Os pneus gemiam a cada curva da velocidade a que o veículo se deslocava. Por quem ele passava, apitava e barafustava.
Colocara um objectivo e planeava alcançá-lo - chegar à morada que lhe tinha sido fornecida antes de acabar de fumar o cigarro. Conduzia com um braço de fora da janela e com o outro a auxiliá-lo a fumar. Por entre o chiar dos pneus, Jones encaixava notas de uma badalada - a sua melhor companhia no ofício.
O velho Mustang não fora construído para curvas, nas retas é que se destacava. Mas as rectas em Chicago nunca são muito longas; as rotações eram levadas ao limite para optimizar a velocidade, logo, sempre que a alavanca era movida, o som do motor ecoava por entre os prédios.
Colocou o pé a fundo no travão e o carro, pouco após, se imobilizou.
Abriu a porta e fechou-a com um estrondo. Olhou em volta, enviou o cigarro apenas meio fumado para o chão, afagou a barba negra e dirigiu-se à porta.
Um senhor idoso estava a passear o seu pequeno cão; parou e começou a recuar enquanto o animal se esforçava para emitir um latido. Darrion olhou de soslaio para o frágil par e eles saltaram para trás.
Bateu duas vezes à porta. Já se preparava para a abrir com um coice quando os trincos desimpediram a entrada.
-O que quer? - Indagou um homem com uma camisola de alças suja e aspeto doente.
-Entrar.
-Perdão?
-Ainda não decidi se to vou dar - Aproximou-se mais - Conhece a Jolie Pierce?
-Não, porquê? - A resposta foi demasiado rápida - É um chui?
-Algo do género - Jones ignorou o homem e entrou. Quando passou por ele, a cabeça do outro apenas lhe atingia o peito.
Procurou ainda tirar a arma do cinto, mas foi neutralizado por um murro no nariz que o fez desmaiar com um estrondo. Guardou a arma do outro e começou a busca.
Colocara um objectivo e planeava alcançá-lo - chegar à morada que lhe tinha sido fornecida antes de acabar de fumar o cigarro. Conduzia com um braço de fora da janela e com o outro a auxiliá-lo a fumar. Por entre o chiar dos pneus, Jones encaixava notas de uma badalada - a sua melhor companhia no ofício.
O velho Mustang não fora construído para curvas, nas retas é que se destacava. Mas as rectas em Chicago nunca são muito longas; as rotações eram levadas ao limite para optimizar a velocidade, logo, sempre que a alavanca era movida, o som do motor ecoava por entre os prédios.
Colocou o pé a fundo no travão e o carro, pouco após, se imobilizou.
Abriu a porta e fechou-a com um estrondo. Olhou em volta, enviou o cigarro apenas meio fumado para o chão, afagou a barba negra e dirigiu-se à porta.
Um senhor idoso estava a passear o seu pequeno cão; parou e começou a recuar enquanto o animal se esforçava para emitir um latido. Darrion olhou de soslaio para o frágil par e eles saltaram para trás.
Bateu duas vezes à porta. Já se preparava para a abrir com um coice quando os trincos desimpediram a entrada.
-O que quer? - Indagou um homem com uma camisola de alças suja e aspeto doente.
-Entrar.
-Perdão?
-Ainda não decidi se to vou dar - Aproximou-se mais - Conhece a Jolie Pierce?
-Não, porquê? - A resposta foi demasiado rápida - É um chui?
-Algo do género - Jones ignorou o homem e entrou. Quando passou por ele, a cabeça do outro apenas lhe atingia o peito.
Procurou ainda tirar a arma do cinto, mas foi neutralizado por um murro no nariz que o fez desmaiar com um estrondo. Guardou a arma do outro e começou a busca.
domingo, 18 de fevereiro de 2018
Darrion Jones Inspetor - I
-Diz-me tudo o que sabes! - Ordenou.
-Eu não sei nada! Eu juro!
-A mim parece-me que sabes. - Colocou a mão na fita que comandava as persianas - Estou sem tempo.
A atitude do homem obeso que se afundava na cama alterou-se drasticamente - Não, por favor! Não faça isso!
-Então, conta-me o que sabes!
-Ah...eu...ah...
O homem que estava de pé ficou enervado - Acabou o tempo! - Puxou a corda e as persianas iniciaram o processo de ascensão.
Há medida que se iam separando, os olhos da criatura reflectiam um terror crescente. Quando a luz do dia entrou pelo quarto adentro, juntamente com ela, vieram gritos.
-Ah! Fecha isso! Por favor, fecha!
-Diz-me o que sabes!
O obeso tapou-se com os lençóis e manteve-se em silêncio.
A passos largos, o inspetor aproximou-se da cama e destapou o outro. Expôs, como destinatário dos raios solares, uma criatura pálida, coberta de pneus e a guinchar.
-Fecha isso! Por favor, fechas as persianas!
O detetive encarava-o com um sorriso poderoso - Vais-me contar tudo o que sabes?
No meio de gritos, respondeu - Sim, eu conto! Eu conto!
O inspetor puxou a corda e cimentou as escadas das persianas umas em cima das outras, não deixando entrar luz no quarto.
A ofegar e com um olhar aliviado, disse-lhe - Ah, estava a morrer...A minha espécie não aguenta muita luz...
-A tua espécie?
-Você não vai entender...
-Nem o pretendo. Onde está a Jolie?
Pairou apenas silêncio acompanhado pelo ofegar na sala. Depois, Doug, declarou em baixo tom, quase sem se fazer ouvir - Não sei...
-O quê?
Subiu um pouco o tom de voz - Não lhe sei dizer onde ela está.
-Não sabes?
-Não. Só me foi pedido para identificar o carro da mãe dela, nada mais.
O inspetor encostou-se ao parapeito da janela. Tirou um cigarro e um isqueiro zipper com a Marilyn Monroe ilustrada. Acendeu o cigarro e deu um longo bafo, fazendo com que o fumo desenhasse arcos naquele quarto parado e quase sem luz.
-Pois, eu acho que não estás a tentar devidamente. - Agarrou na alavanca e deteve-se, com o olhar fixo em Doug. Retomou a puxá-la lentamente.
-Não, por favor, pare.
-O quê? Não te consigo ouvir...
-Pare!
Darrion Jones foi cantando uma badalada western, enquanto ia deixando entrar no quarto raios de sol.
-Pára, seu cabrão! Pára!
-Ela viu-me no horizonte...
-Fecha essa merda!
Já se viam claramente os contornes do recheio do quarto.
-Seu filho da puta! Fecha essa merda!
-Com pés de cavalo e coração de víbora...
Doug soltava grunhidos e alguns palavrões.
-Não resistiu ao meu serpentear. Guardei-a no meu coldre...
-A matrícula do carro é AK 47 FU! Eles seguiram no carro da mãe dela!
-Estás a gozar?
-Não, é mesmo assim, por favor!
Darrion puxou a corda e a penumbra instalou-se no quarto.
-Se me estiveres a mentir, vais cozinhar até ao fim da badalada.
-Eu não sei nada! Eu juro!
-A mim parece-me que sabes. - Colocou a mão na fita que comandava as persianas - Estou sem tempo.
A atitude do homem obeso que se afundava na cama alterou-se drasticamente - Não, por favor! Não faça isso!
-Então, conta-me o que sabes!
-Ah...eu...ah...
O homem que estava de pé ficou enervado - Acabou o tempo! - Puxou a corda e as persianas iniciaram o processo de ascensão.
Há medida que se iam separando, os olhos da criatura reflectiam um terror crescente. Quando a luz do dia entrou pelo quarto adentro, juntamente com ela, vieram gritos.
-Ah! Fecha isso! Por favor, fecha!
-Diz-me o que sabes!
O obeso tapou-se com os lençóis e manteve-se em silêncio.
A passos largos, o inspetor aproximou-se da cama e destapou o outro. Expôs, como destinatário dos raios solares, uma criatura pálida, coberta de pneus e a guinchar.
-Fecha isso! Por favor, fechas as persianas!
O detetive encarava-o com um sorriso poderoso - Vais-me contar tudo o que sabes?
No meio de gritos, respondeu - Sim, eu conto! Eu conto!
O inspetor puxou a corda e cimentou as escadas das persianas umas em cima das outras, não deixando entrar luz no quarto.
A ofegar e com um olhar aliviado, disse-lhe - Ah, estava a morrer...A minha espécie não aguenta muita luz...
-A tua espécie?
-Você não vai entender...
-Nem o pretendo. Onde está a Jolie?
Pairou apenas silêncio acompanhado pelo ofegar na sala. Depois, Doug, declarou em baixo tom, quase sem se fazer ouvir - Não sei...
-O quê?
Subiu um pouco o tom de voz - Não lhe sei dizer onde ela está.
-Não sabes?
-Não. Só me foi pedido para identificar o carro da mãe dela, nada mais.
O inspetor encostou-se ao parapeito da janela. Tirou um cigarro e um isqueiro zipper com a Marilyn Monroe ilustrada. Acendeu o cigarro e deu um longo bafo, fazendo com que o fumo desenhasse arcos naquele quarto parado e quase sem luz.
-Pois, eu acho que não estás a tentar devidamente. - Agarrou na alavanca e deteve-se, com o olhar fixo em Doug. Retomou a puxá-la lentamente.
-Não, por favor, pare.
-O quê? Não te consigo ouvir...
-Pare!
Darrion Jones foi cantando uma badalada western, enquanto ia deixando entrar no quarto raios de sol.
-Pára, seu cabrão! Pára!
-Ela viu-me no horizonte...
-Fecha essa merda!
Já se viam claramente os contornes do recheio do quarto.
-Seu filho da puta! Fecha essa merda!
-Com pés de cavalo e coração de víbora...
Doug soltava grunhidos e alguns palavrões.
-Não resistiu ao meu serpentear. Guardei-a no meu coldre...
-A matrícula do carro é AK 47 FU! Eles seguiram no carro da mãe dela!
-Estás a gozar?
-Não, é mesmo assim, por favor!
Darrion puxou a corda e a penumbra instalou-se no quarto.
-Se me estiveres a mentir, vais cozinhar até ao fim da badalada.
quarta-feira, 14 de fevereiro de 2018
Fantasias Faialenses
Nenhuma imagem me poderia ter preparado para o filme que à minha frente se desenrolou: de um lado, uma ilha verdejante com habitações a escalarem a sua inclinação; e do outro, mais ao longe, um dedo de rocha que tentava tocar à porta do reino da divindade.
Revivo o passado e dou início a uma jornada épica, cujo álbum de imagens do Prólogo está finalmente completo.
quinta-feira, 8 de fevereiro de 2018
Ecrãs que Refletem
Este mundo, este novo mundo inundado por fios e tomadas, e agora, por dispositivos wireless. O que acham vocês disto? - Indagou o senhor de barba e alma fartas.
Passados uns segundos, um aluno sentado ao fundo da sala, respondeu - É algo necessário. Embora o professor tenha dito isso num tom depreciativo, não seria possível ter uma vida tão confortável como a temos sem estes dispositivos - Após esta resposta, os olhos da sala voltaram-se para o senhor de idade, que se apoiava pensativamente numa bengala.
-É um bom ponto. Contudo, será este conforto algo de positivo?
-Claro, professor. Sem ele, teríamos de caçar para sobreviver; e a própria esperança média de vida seria muito inferior.
-Não me expressei bem - Afagou lentamente a barba - Será bom nestas quantidades?
- Foi apenas "com estas quantidades" que eu, e todos os que deste lado estão, vivemos. Não conheço outra forma.
-Eu compreendo isso. Daí eu estar aqui: uma pessoa que carrega mais alguns anos - Deslocou-se para a primeira fila de mesas e sentou-se numa que estava vazia - Com as tecnologias não vem apenas conforto. Somos obrigados a viver ao ritmo das máquinas; mas elas não precisam de comer, beber e ir à casa de banho. Somos obrigados a estar acordados vinte e quatro horas; mesmo estando a dormir, sonhamos com tecnologias ou com algo que delas deriva.
"Quando estamos acordados, a nossa mente, a nossa imaginação está gasta e embaciada devido a excesso de estímulo tecnológico."
"Ao surfarmos no mar, tiramos a água dos ouvidos através de uma descompressão ou de algo do género. Ao surfarmos na internet, isso não se sucede pois não somos nós que surfamos, mas o nosso cérebro e este, não tem ouvidos nem seios perinasais - Temos o cérebro afogado por ecrãs.
-O que afirma é que estamos a desgastar a nossa imaginação , a nossa mente, devido a tecnologias?
-A única coisa que afirmo e que quero que tenham presente é o seguinte: passem menos tempo à frente de ecrãs, mesmo que vos pareça necessário, pois esse é um dos efeitos secundários. Terão a mente mais limpa; vocês não dizem que os vidros já estão limpos quando ainda estão molhados, pois não?
-Não!- Ecoou a turma.
-Então sequem a vossa mente. Observem, cheirem, toquem, oiçam e saboreiem a vida porque ela, ao contrário dos ecrãs negros, transparecer-vos-à a verdade e não um reflexo.
Todos se levantaram após ouvirem aquele discurso de palavras gastas, mas nutridas, pela vida.
Passados uns segundos, um aluno sentado ao fundo da sala, respondeu - É algo necessário. Embora o professor tenha dito isso num tom depreciativo, não seria possível ter uma vida tão confortável como a temos sem estes dispositivos - Após esta resposta, os olhos da sala voltaram-se para o senhor de idade, que se apoiava pensativamente numa bengala.
-É um bom ponto. Contudo, será este conforto algo de positivo?
-Claro, professor. Sem ele, teríamos de caçar para sobreviver; e a própria esperança média de vida seria muito inferior.
-Não me expressei bem - Afagou lentamente a barba - Será bom nestas quantidades?
- Foi apenas "com estas quantidades" que eu, e todos os que deste lado estão, vivemos. Não conheço outra forma.
-Eu compreendo isso. Daí eu estar aqui: uma pessoa que carrega mais alguns anos - Deslocou-se para a primeira fila de mesas e sentou-se numa que estava vazia - Com as tecnologias não vem apenas conforto. Somos obrigados a viver ao ritmo das máquinas; mas elas não precisam de comer, beber e ir à casa de banho. Somos obrigados a estar acordados vinte e quatro horas; mesmo estando a dormir, sonhamos com tecnologias ou com algo que delas deriva.
"Quando estamos acordados, a nossa mente, a nossa imaginação está gasta e embaciada devido a excesso de estímulo tecnológico."
"Ao surfarmos no mar, tiramos a água dos ouvidos através de uma descompressão ou de algo do género. Ao surfarmos na internet, isso não se sucede pois não somos nós que surfamos, mas o nosso cérebro e este, não tem ouvidos nem seios perinasais - Temos o cérebro afogado por ecrãs.
-O que afirma é que estamos a desgastar a nossa imaginação , a nossa mente, devido a tecnologias?
-A única coisa que afirmo e que quero que tenham presente é o seguinte: passem menos tempo à frente de ecrãs, mesmo que vos pareça necessário, pois esse é um dos efeitos secundários. Terão a mente mais limpa; vocês não dizem que os vidros já estão limpos quando ainda estão molhados, pois não?
-Não!- Ecoou a turma.
-Então sequem a vossa mente. Observem, cheirem, toquem, oiçam e saboreiem a vida porque ela, ao contrário dos ecrãs negros, transparecer-vos-à a verdade e não um reflexo.
Todos se levantaram após ouvirem aquele discurso de palavras gastas, mas nutridas, pela vida.
segunda-feira, 5 de fevereiro de 2018
A Primeira Vez
Quando eu e os meus pais viemos visitar esta casa, oh que bonitas são as memórias. Todos os sentidos eram esmagados pela novidade. Cada uma das paredes brancas da casa era como uma tela por pintar, cheias de ideias que mais tarde a inundaria de cores. O ar que me entrava pelas narinas trazia perfumes novos, novas fragrâncias que acompanhavam as visões do meu futuro. Um toque em qualquer componente da casa fazia com que o próprio sangue fervilhasse de excitação. Um passo dentro da casa, não era um passo, mas o passo.
A infância está cheia de novidades, cheia de cores, cheia de sons e de individualidade. Por outro lado, a rotina erode-nos os sentidos, desfoca-nos as cores, entope-nos o nariz de ranho e os ouvidos de cera. Aquilo que já conhecemos é o pó que nos impede de tocarmos em algo de novo; é o acrescentar de mais uma peça e não o criar da primeira.
Cada uma das paredes da casa passa a ser apenas as vulgares, não tão limpas quanto se desejaria, paredes da casa. O perfume desta ou não se capta, ou é desagradável, o cheiro do passado amontoado. As minhas mãos calosas já me impedem de sentir os órgãos deste memorial. E um passo lá já não é o passo, mas outro de muitos, até ser o último.
A infância está cheia de novidades, cheia de cores, cheia de sons e de individualidade. Por outro lado, a rotina erode-nos os sentidos, desfoca-nos as cores, entope-nos o nariz de ranho e os ouvidos de cera. Aquilo que já conhecemos é o pó que nos impede de tocarmos em algo de novo; é o acrescentar de mais uma peça e não o criar da primeira.
Cada uma das paredes da casa passa a ser apenas as vulgares, não tão limpas quanto se desejaria, paredes da casa. O perfume desta ou não se capta, ou é desagradável, o cheiro do passado amontoado. As minhas mãos calosas já me impedem de sentir os órgãos deste memorial. E um passo lá já não é o passo, mas outro de muitos, até ser o último.
quarta-feira, 31 de janeiro de 2018
A prisão do Olhar
Mostrei o meu bilhete de identidade para verem se tinha mais de 17 anos. Qualquer pessoa que me olhasse do outro lado da rua, dar-me-ia no mínimo 30. E de tão perto, com as marcas horizontais e verticais da idade, 40 anos.
O homem que me revistava tinha três vezes o meu peso, uma vez e meia a minha altura e, mesmo assim, justificou-se - É parte da obrigação, senhor - Não fosse um jovem de 16 anos maquilhar-se de modo a atrair as amigas da mãe ou de modo a parecer um pedófilo.
Ao entrar na discoteca, distingui melhor o ruído que a controlava. Era uma daquelas músicas ditadoras que nos obrigam a anuir para mostrar que nos estamos a divertir.
Enquanto passava pelo meio da multidão de adultos jovens, reparei em duas mulheres que andavam mais perto dos trintas do que dos vintes. Uma, mais baixa e a outra mais alta, abraçadas elegantemente, a dançar ao ritmo de uma balada romântica que apenas elas ouviam. A mais baixa, que tinha na sua posse o traseiro da outra, dizia algo que provocava o riso.
Desviei a minha atenção daquela cena encantadora e procurei o autor dos atentados sonoros. Encontrava-se numa esbelta torre, um pouco acima do nível da pista de dança. Se ele fosse dotado de alguma inteligência, o que devia ser - visto que pagavam para entrar na discoteca enquanto ele recebia - então os auscultadores dele isolá-lo-iam das marteladas que tocavam para controlar a multidão de jovens bêbados.
Eles estavam bêbados e eu precisava de uma bebida, não havia outro modo. Encostei-me ao balcão e gritei ao empregado por um martini rosso.
Olhei em volta à procura de refúgio, à procura de outra personagem. Não demorou muito. Na zona vip, os tons de branco e bege não destoavam, mas o que o fazia era o excesso de roupa, os óculos para ver ao longe e, claro, o olhar atento na direcção de um casal que estava ao meu lado, enquanto apontava algo num bloco de notas. Ela envergava uma saia bege de cabedal, uma camisa branca coberta por um casaco, também ele bege e de cabedal.
Tinha as pernas cruzadas e os ombros contraídos de concentração, o que fazia com que os seus cânones estivessem expostos como quando um quadro está a dar os primeiros passos. O seu cabelo loiro, esticado e preso e o batom vermelho que coloria os seus lábios faziam com que dificilmente um homem passasse ali sem nela notar.
De súbito, virou a cabeça na minha direcção e os nosso olhares prenderam-se. Em 42 anos de existência, nunca um olhar me aprisionou, nunca um olhar me despertou daquela maneira. O verde dos olhos dela levou-me para um mundo aparte, um mundo em que o nosso corpo fundido, o crepitar da lareira e a suavidade do tapete de peles, reinavam. Ela subitamente voltou a atentar ao casal e eu segui-a.
O rapaz parecia concretizado. Por vezes, dizia algumas palavras ao ouvido da rapariga, e no resto do tempo, olhava em seu redor, nunca reparando em quem o observava.
Ela, por outro lado, estava aborrecida, e sempre que ele se tentava aproximar, distanciava-se. Para a idade, tinha umas linhas atraentes, mas nada que se comparasse à outra. Queria-se afastar dele, isso era berrante. Mas não o podia por alguma razão. Talvez a observadora a soubesse. Virei a cara e nada vi, a cadeira estava vazia.
O homem que me revistava tinha três vezes o meu peso, uma vez e meia a minha altura e, mesmo assim, justificou-se - É parte da obrigação, senhor - Não fosse um jovem de 16 anos maquilhar-se de modo a atrair as amigas da mãe ou de modo a parecer um pedófilo.
Ao entrar na discoteca, distingui melhor o ruído que a controlava. Era uma daquelas músicas ditadoras que nos obrigam a anuir para mostrar que nos estamos a divertir.
Enquanto passava pelo meio da multidão de adultos jovens, reparei em duas mulheres que andavam mais perto dos trintas do que dos vintes. Uma, mais baixa e a outra mais alta, abraçadas elegantemente, a dançar ao ritmo de uma balada romântica que apenas elas ouviam. A mais baixa, que tinha na sua posse o traseiro da outra, dizia algo que provocava o riso.
Desviei a minha atenção daquela cena encantadora e procurei o autor dos atentados sonoros. Encontrava-se numa esbelta torre, um pouco acima do nível da pista de dança. Se ele fosse dotado de alguma inteligência, o que devia ser - visto que pagavam para entrar na discoteca enquanto ele recebia - então os auscultadores dele isolá-lo-iam das marteladas que tocavam para controlar a multidão de jovens bêbados.
Eles estavam bêbados e eu precisava de uma bebida, não havia outro modo. Encostei-me ao balcão e gritei ao empregado por um martini rosso.
Olhei em volta à procura de refúgio, à procura de outra personagem. Não demorou muito. Na zona vip, os tons de branco e bege não destoavam, mas o que o fazia era o excesso de roupa, os óculos para ver ao longe e, claro, o olhar atento na direcção de um casal que estava ao meu lado, enquanto apontava algo num bloco de notas. Ela envergava uma saia bege de cabedal, uma camisa branca coberta por um casaco, também ele bege e de cabedal.
Tinha as pernas cruzadas e os ombros contraídos de concentração, o que fazia com que os seus cânones estivessem expostos como quando um quadro está a dar os primeiros passos. O seu cabelo loiro, esticado e preso e o batom vermelho que coloria os seus lábios faziam com que dificilmente um homem passasse ali sem nela notar.
De súbito, virou a cabeça na minha direcção e os nosso olhares prenderam-se. Em 42 anos de existência, nunca um olhar me aprisionou, nunca um olhar me despertou daquela maneira. O verde dos olhos dela levou-me para um mundo aparte, um mundo em que o nosso corpo fundido, o crepitar da lareira e a suavidade do tapete de peles, reinavam. Ela subitamente voltou a atentar ao casal e eu segui-a.
O rapaz parecia concretizado. Por vezes, dizia algumas palavras ao ouvido da rapariga, e no resto do tempo, olhava em seu redor, nunca reparando em quem o observava.
Ela, por outro lado, estava aborrecida, e sempre que ele se tentava aproximar, distanciava-se. Para a idade, tinha umas linhas atraentes, mas nada que se comparasse à outra. Queria-se afastar dele, isso era berrante. Mas não o podia por alguma razão. Talvez a observadora a soubesse. Virei a cara e nada vi, a cadeira estava vazia.
domingo, 28 de janeiro de 2018
Factory Farming e Fast Food
Quando nos perguntamos quais foram os melhores momentos das nossas vidas, a resposta quase nunca varia: o primeiro dia. Aquele dia em que podemos estar com a nossa mãe. Em que ela nos ensina os costumes de lá. Ou pelo menos era isso que as outras faziam, pois a minha só chorava nas primeiras horas.Levei algum tempo a acostumar-me àquela vida, não que eu conhecesse outra. Apenas ao fim da quinta hora é que eu consegui trocar as primeiras palavras com a minha mãe sem que ela encharcasse os pelos da sua face.
As estórias que me contou pareceram-me muito distantes na altura. Estórias sobre uma vaca que vivia em liberdade com os seus filhos até o seu amo ter desaparecido. Estórias acerca do seu aprisionamento e violação. Estórias em que o fruto dessas violações eram vitelinhos que ela amava mais que tudo e que lhe eram tirados ao fim de um dia.
Ela, ao contrário das outras, havia vivido em liberdade e tinha-me prevenido para o meu miserável futuro. Não que isso tornasse o meu afastamento dela, o aço a arder na minha nádega esquerda ou as regulares sessões de espancamento mais fáceis de suportar. Simplesmente tornava-as previsíveis.
Foram assim os meus quatro meses de paço para a frente, passo para trás. Um passo à frente para comer discos castanhos que aumentavam o meu peso e outro atrás para libertar os excedentes.
Os meus vizinhos foram variando. A maioria deles não estava lá mais de um mês. Pelo que notei, as mães deles não lhes tinham contado a verdade. Eles acreditavam que tinham de comer muito e que quando atingissem o tamanho ideal seriam libertados no paraíso. Um local com infindáveis pastos de erva fresca, onde estariam rodeados dos amigos e familiares. Poderiam apanhar sol ou viver debaixo de uma árvore. Poderiam ser livres.
A minha mãe contou-me algo bem diferente, mas a única coisa que eu sei é que quem desaparece já não volta.
Um dia, um dos tratadores abriu a minha portinhola e levou-me em direcção ao local do meu nascimento. O meu coração palpitou de excitação. Era possível que os vizinhos tivessem razão e não eu. Levavam-me de volta para junto da minha mãe.
Rapidamente me desiludi quando fui colocado num local ainda mais escuro e apertado que o outro. Tentei voltar para trás mas não tive sorte. Portanto procurei colocar a cabeça pelo único buraco por onde a luz conseguia penetrar. De novo me arrependi pois entendi que do outro lado estava um humano que me olhava com olhos gélidos o suficiente para arrefecer o meu coração. Este empunhava uma machete encarnada e dirigia-se a mim. À medida que ele avançava, eu tentava recuar a todo custo, mas a minha cabeça tinha aumentado, possivelmente devido ao pânico que de mim se apoderava.
Fazia-se ouvir o eco dos meus mugidos e gemidos. Contudo, nenhum deles saciou a sede de sangue do humano porque este, com um golpe preciso e experiente, degolou-me e encheu o balde com o meu sangue. Até o fluído da minha vida foi aprisionado.
Juntei-me ao pasto divino e observei o ponto final do meu ser físico.
Devo dizer com orgulho que muitas crianças com excesso de peso ingeriram a carne das minhas nádegas acompanhada por batatas fritas ricas em sal. Pensei para mim: "Morri e vivi de forma miserável, mas ao menos confeccionam-me da mesma forma de modo a reduzir a esperança de vida de quem me ingere."
Fica aqui o link de um post de outro blog meu acerca da criação animal e do impacte que isso tem no ambiente e na ética https://viewwithmy-eyes.blogspot.pt/2017/01/factory-farming-slaughter-pain-animals-environment-health-vegetarianism.html
quinta-feira, 25 de janeiro de 2018
Shaolin
Após horas, dias e dias de viagem, finalmente cheguei ao meu destino, ao meu sonho.Fui esmagado logo à partida pela vegetação densa que me rodeava. Ouviam-se todo o tipo de aves que o meu panfleto turístico indicava. Desde... a... Bem, a verdade é que eu não sabia ler em Mandarim, o que significava que até o canto das aves parecia vir numa língua diferente.
Desde que saí do autocarro que quem me acompanhava era o vento e ninguém mais. Ah... e um senhor de idade avançada que começou logo, prontamente e de forma concentrada, a subir a enorme escadaria que se estendia pela minha frente.
Ali nada se obtia facilmente, nada se obtia sem esforço. Só para se ver o Templo, uma pessoa tinha de subir todos aqueles degraus. Isso só por si já era uma grande aventura.
Comecei a subir as escadas uma a uma como o meu mestre me tinha ensinado. Não queria chegar ao topo a ofegar, isso colocar-me-ia, aos olhos deles, na posição de um fraco. Mas, quando lá cheguei, estava de facto a ofegar e, para meu espanto, ninguém notou a minha chegada. Aquele conjunto de pequenos edifícios modestos parecia estar abandonado. Não se ouvia nem via ninguém.
Dei uns passos, rodeado pela história da China, até ver as primeiras pessoas. Procurei aproximar-me delas para me darem direcções. Contudo, concluí que deviam estar tão perdidos como eu, eram turistas.Ao passar por eles, troquei um sorriso com o jovem casal e prossegui a minha procura não só espiritual, mas agora também social.
Comecei por ouvir um ruído ao longe, como gritos assertivos humanos. Senti-me imensamente entusiasmado e procurei decifrar a sua origem. Ao seguir em frente, os gritos pareciam estar mais próximos. Aliás, pareciam estar mesmo ao meu lado. Olhei nessa direcção e notei numa pequena casa que não me era totalmente alheia. Entrei e percebi o porquê: nenhuma outra tinha o chão deformado e moldado daquela forma. Aquele era o famoso local onde os monges iam treinar para aperfeiçoar individualmente, mas acompanhados, as suas técnicas. Estavam acompanhados porque se fazia ouvir as vozes do passado, as vozes de todos os que ali haviam treinado. Eram esses os gritos que tinha ouvido.
Fechou os olhos, respirou fundo, e deixou-se embeber por todos aqueles sons de treino. Desde gritos a pancadas no chão até ao ar que era exalado quando executavam algum golpe. Até ordens se faziam ouvir.
Ordens? Isso já não fazia muito sentido. Fechou de novo os olhos e de novo ouviu. Ele não era tão imaginativo, aqueles sons eram reais.
Viu os dois turistas a passarem pela porta e saiu da casa para os abordar - Falam inglês?
-Sim.
-Ah, ainda bem. Não sou famosos pelo meu mandarim - Eles sorriram.
-Nós também não, apenas conhecemos algumas palavras - Disse ela.
-Pois...Por acaso não me sabem dizer de onde vem este som?
-Ao princípio, pensei que fosse da minha imaginação - Afirmou o homem.
-Exacto, também eu! - Ambos soltaram uma gargalhada.
-Mas agora penso que vem daí da frente.
Ela acrescentou - Mais vale irmos espreitar.
Anui e seguimos o breve trajecto até nos depararmos com o inimaginável. Estávamos no ponto mais alto e este permitia-nos contemplar a extensão dos campos de treino. Estes estavam cobertos por manchas amarelas e laranjas de monges de Shaolin a realizarem movimentos ao som das ordens dos mestres.
segunda-feira, 22 de janeiro de 2018
Violência Doméstica
Sento-me no sofá. Que bem que estou neste novo sofá que se molda aos e absorve os contornos do meu corpo. No antigo, era eu quem tinha de suportar o peso das diversas cervejas. Assim não é preciso, há sempre espaço para mais.
Depois de um dia de trabalho, não há mesmo nada melhor do que me sentar e aproveitar as últimas horas em que o sol ainda espreita.
Aparece Carl, a espreitar, encostado à porta - Então, Carl? Anda cá dar um beijinho ao pai.
O rapaz de quatro anos também sobe para o sofá e dá um abraço ao pai.
-Como é que te correu o dia, filho?
Ele sorri - Muito bem! Estivemos a brincar com bichinhos da seda.
-Bichos da seda? Isso são aqueles que viram borboletas ou algo assim, certo?
-Sim, Sim! - Carl ri-se quando o pai imitou uma borboleta com as mãos e depois o despenteou.
-Eu quero que a minha seja vermelha!
-Boa escolha! Nesta casa até as borboletas são vermelhas. Ninguém pára os Bulls.
-Ninguém pára os Bulls! - Repetiu o filho.
-Por falar nisso, vamos ver o que está a dar na televisão.
Liga-a e começa a ver, abraçado ao filho, um jogo de basquetebol entre os Chicago Bulls e os Miami Heat.
Jennifer, a sua mulher chega a casa.
-Ah, Jen! Ainda bem que chegas! Eras capaz de me trazer uma cerveja, querida?
Ela pousa as chaves numa mesa à entrada - Mas tu achas que eu não tenho mais nada que fazer?
-Desculpa?
-Chego a casa depois de um dia de trabalho e ainda te tenho de levar uma cerveja? - Olha para o filho - Carl, vai fazer os trabalhos de casa.
Carl afasta-se rapidamente.
Doug levanta-se e aproxima-se da mulher - Hoje vens chateada, é?
-Também tenho esse direito!
-Tens, mas não ao pé do nosso filho!
-Eu não escolho...
-Então passas a escolher! - Jennifer começou com uma lágrima a escorrer-lhe pela face, por cima de um hematoma - Então Jen... Não chores, pronto... - Limpou-lhe a lágrima - Pronto...
-Afasta-te de mim! - Gritou-lhe.
Doug, quando ela se tentava afastar, segura-lhe no pulso e dá-lhe uma estalada na cara com as costas da mão - Estava a ser simpático e tu em troca gritas-me? Sabes que eu detesto gritos, não sabes? - Jennifer anuiu - Muito bem, ainda estou à espera dessa cerveja - Largou-lhe o pulso e foi-se sentar.
-Estas mulheres realmente...
Depois de um dia de trabalho, não há mesmo nada melhor do que me sentar e aproveitar as últimas horas em que o sol ainda espreita.
Aparece Carl, a espreitar, encostado à porta - Então, Carl? Anda cá dar um beijinho ao pai.
O rapaz de quatro anos também sobe para o sofá e dá um abraço ao pai.
-Como é que te correu o dia, filho?
Ele sorri - Muito bem! Estivemos a brincar com bichinhos da seda.
-Bichos da seda? Isso são aqueles que viram borboletas ou algo assim, certo?
-Sim, Sim! - Carl ri-se quando o pai imitou uma borboleta com as mãos e depois o despenteou.
-Eu quero que a minha seja vermelha!
-Boa escolha! Nesta casa até as borboletas são vermelhas. Ninguém pára os Bulls.
-Ninguém pára os Bulls! - Repetiu o filho.
-Por falar nisso, vamos ver o que está a dar na televisão.
Liga-a e começa a ver, abraçado ao filho, um jogo de basquetebol entre os Chicago Bulls e os Miami Heat.
Jennifer, a sua mulher chega a casa.
-Ah, Jen! Ainda bem que chegas! Eras capaz de me trazer uma cerveja, querida?
Ela pousa as chaves numa mesa à entrada - Mas tu achas que eu não tenho mais nada que fazer?
-Desculpa?
-Chego a casa depois de um dia de trabalho e ainda te tenho de levar uma cerveja? - Olha para o filho - Carl, vai fazer os trabalhos de casa.
Carl afasta-se rapidamente.
Doug levanta-se e aproxima-se da mulher - Hoje vens chateada, é?
-Também tenho esse direito!
-Tens, mas não ao pé do nosso filho!
-Eu não escolho...
-Então passas a escolher! - Jennifer começou com uma lágrima a escorrer-lhe pela face, por cima de um hematoma - Então Jen... Não chores, pronto... - Limpou-lhe a lágrima - Pronto...
-Afasta-te de mim! - Gritou-lhe.
Doug, quando ela se tentava afastar, segura-lhe no pulso e dá-lhe uma estalada na cara com as costas da mão - Estava a ser simpático e tu em troca gritas-me? Sabes que eu detesto gritos, não sabes? - Jennifer anuiu - Muito bem, ainda estou à espera dessa cerveja - Largou-lhe o pulso e foi-se sentar.
-Estas mulheres realmente...
sexta-feira, 19 de janeiro de 2018
Dentro da Mente
-Podes-me passar o azeite? - Indagou o pai de Anthony, querendo inquirir algo mais do que tinha expressado.
-Toma - Anthony passou o azeite num tom de desinteresse.
Apenas se fazia ouvir o tinir dos talheres nos pratos; e do silêncio que tendia a ser o que mais alto gritava.
Rose ia esfarelando o peixe cosido do seu prato e ia-o colocando cuidadosamente na boca, fazendo os possíveis para não perturbar o silêncio. Enquanto fazia isso, a menina de 9 anos enrolava um dos seus cabelos encaracolados no seu dedo indicador.
-Tony, não gostas do peixe? - Quebrou a mãe o silêncio.
O rapaz hesitou - Gosto, mas...Não muito - Esperou uma reacção pouco agradável.
-Quando eu era rapaz, era um dos melhores petiscos que me podiam dar, o peixe cosido - Constatou Carl à medida que ia coçando a sua narina deformada - Hoje em dia, há muitos rapazes e raparigas que não gostam. É normal, é o fruto das porcarias que se vendem.
-Pois, os tempos mudaram... - Acrescentou Lara.
-Se mudaram. Se mudaram. Mas, de qual...
.Eu também não gosto - Disse Rose.
A mãe riu-se- Se gostasses, isso é que seria uma novidade - Esta afirmação quebrou a tenção do momento e todos se riram.
-E quem é que quer sobremesa? - Perguntou Lara enquanto levantava os pratos e os talheres da mesa.
-Eu! - Afirmou de imediato Rose.
-Ah! Isso já queres! - Carl despenteou a filha - Sua gulosa! No entanto, eu também aceito.
-Seu guloso! - Ripostou Rose.
-O que me chamaste, menina fofinha?
-Guloso! Guloso!
-Anda cá que eu te apanho! - Começou a perseguir a filha, que ria, a caminho da cozinha.
Anthony estava embrenhado nos seus pensamentos, até que a sua mãe o interrompeu - Tony...Tony!
-Sim...mãe?
Não queres vir escolher a sobremesa?
-Sim, sim já vou!
-Está bem, mas não te demores senão eles comem tudo.
O silêncio aterrou de novo e Anthony regressou à sua voz interior. Aliás, nunca dela tinha saído.
-Toma - Anthony passou o azeite num tom de desinteresse.
Apenas se fazia ouvir o tinir dos talheres nos pratos; e do silêncio que tendia a ser o que mais alto gritava.
Rose ia esfarelando o peixe cosido do seu prato e ia-o colocando cuidadosamente na boca, fazendo os possíveis para não perturbar o silêncio. Enquanto fazia isso, a menina de 9 anos enrolava um dos seus cabelos encaracolados no seu dedo indicador.
-Tony, não gostas do peixe? - Quebrou a mãe o silêncio.
O rapaz hesitou - Gosto, mas...Não muito - Esperou uma reacção pouco agradável.
-Quando eu era rapaz, era um dos melhores petiscos que me podiam dar, o peixe cosido - Constatou Carl à medida que ia coçando a sua narina deformada - Hoje em dia, há muitos rapazes e raparigas que não gostam. É normal, é o fruto das porcarias que se vendem.
-Pois, os tempos mudaram... - Acrescentou Lara.
-Se mudaram. Se mudaram. Mas, de qual...
.Eu também não gosto - Disse Rose.
A mãe riu-se- Se gostasses, isso é que seria uma novidade - Esta afirmação quebrou a tenção do momento e todos se riram.
-E quem é que quer sobremesa? - Perguntou Lara enquanto levantava os pratos e os talheres da mesa.
-Eu! - Afirmou de imediato Rose.
-Ah! Isso já queres! - Carl despenteou a filha - Sua gulosa! No entanto, eu também aceito.
-Seu guloso! - Ripostou Rose.
-O que me chamaste, menina fofinha?
-Guloso! Guloso!
-Anda cá que eu te apanho! - Começou a perseguir a filha, que ria, a caminho da cozinha.
Anthony estava embrenhado nos seus pensamentos, até que a sua mãe o interrompeu - Tony...Tony!
-Sim...mãe?
Não queres vir escolher a sobremesa?
-Sim, sim já vou!
-Está bem, mas não te demores senão eles comem tudo.
O silêncio aterrou de novo e Anthony regressou à sua voz interior. Aliás, nunca dela tinha saído.
sábado, 13 de janeiro de 2018
Trovão Rubro
-Não sabes? Eu não sou o homem que matou a tua mulher. Sou apenas um dos muitos - Riu-se - Porque ela morreu lentamente, cm a cm. Uma pessoa diferente, um espectro de novos gritos - Lambeu-se - Oh, que linda que era quando gritava!
Ele continuou a falar e a descrever horrores. Mas eu já não o ouvia.
Tinha vindo atrás daquele que matou o meu coração e agora ele dizia-me que este não tinha parado de bombear. Afirmava que o tinham puxado em todas as direcções, em todos os ângulos, até não bombear sangue, mas chorá-lo.
Através de um corrente eléctrica repentina que ascendeu para o meu corpo através do meu dedo anelar, senti água. Água que escorria do interior do meu peito. Uma zona que havia estado congelada, parada no tempo, desde que tinha recebido a notícia, à espera daquele momento.
A energia ascendente tinha alcançado o meu peito e entrado no seu núcleo com um, e apenas um, objectivo.
-Todos a matámos. Mas, por viver contigo, ela já estava em parte morta. - Soltou uma gargalhada que foi travada por um apertar no pescoço de uma superior magnitude. O ar já não lhe chegava.
Serrei os dentes e contive toda aquela energia. Apenas soltei uns rugidos, não queria que se dissipasse com um grito.
Apertei-o e levantei-o bem alto, apenas com uma mão. De seguida, atirei-o para o chão. Antes que se levantasse, eu já estava em cima dele a bater-lhe com a coronha da arma, a reivindicar o fluído carnal, como um trovão rubro.
quarta-feira, 10 de janeiro de 2018
Darrion Jones Vitoriano
Combinámos à noite por o meu amigo não gostar do dia. Afirma que no destino dos raios solares tudo o que se encontra e vê é superficialidade. Sendo estas as suas palavras.
Notei-o ao longe, inconfundível como sempre.
A atravessar a rua para onde eu estava vinha um homem...não, um senhor como exigia que o tratassem. Este senhor tinha, no mínimo, uma cabeça a mais que as outras pessoas, estando ela coberta por um manto negro de cabelos selvagens. Cabelos estes que se fundiam à barba.
Os passos de Darrion Jones não se assemelhavam aos de um homem, mas aos do próprio vento. Passos leves, rápidos e atarefados. À velocidade a que se deslocava, a sua gabardine planava atrás de si como uma bandeira. Quando a bandeira se afastava da haste, via-se a sabedoria delineada nos contornos dos seus braços e peito.
Darrion não era um poeta como os outros, todo o seu corpo expelia versos e eloquência, não apenas a sua boca.
Aquele que o visse pela primeira vez, não deixaria de o invocar à mesa. Para contar à família sobre a sombra que por ele tinha passado.
Notei-o ao longe, inconfundível como sempre.
A atravessar a rua para onde eu estava vinha um homem...não, um senhor como exigia que o tratassem. Este senhor tinha, no mínimo, uma cabeça a mais que as outras pessoas, estando ela coberta por um manto negro de cabelos selvagens. Cabelos estes que se fundiam à barba.
Os passos de Darrion Jones não se assemelhavam aos de um homem, mas aos do próprio vento. Passos leves, rápidos e atarefados. À velocidade a que se deslocava, a sua gabardine planava atrás de si como uma bandeira. Quando a bandeira se afastava da haste, via-se a sabedoria delineada nos contornos dos seus braços e peito.
Darrion não era um poeta como os outros, todo o seu corpo expelia versos e eloquência, não apenas a sua boca.
Aquele que o visse pela primeira vez, não deixaria de o invocar à mesa. Para contar à família sobre a sombra que por ele tinha passado.
sexta-feira, 5 de janeiro de 2018
Unidos por Sangue
Aubrey abre os olhos com dificuldade e tenta esfregá-los. Não consegue pois está acorrentada pelos pulsos a uma argola. Esta argola está presa à porta da carrinha que a transporta.
A sua respiração acelera e, com os olhos ainda vermelhos, procura observar o que a rodeia. Está dentro de uma carrinha, no espaço atrás dos dois lugares da frente. Ao volante encontra-se um homem encapuçado que a vai olhando de poucos em poucos segundos.
-Por favor, não sei quem é. Mas, por favor, deixe-me ir embora! Eu não digo nada a ninguém.
-Cala-te! - A expressão de reconhecimento marcou-se na face de Aubrey. - Para onde te levo também não vais contar a ninguém.
-Da...David, és tu?
-Cala-te! Já te avisei!
-Ah, és tu David. Não sei porque é que estás a fazer isto. Mas, por favor, deixa-me ir embora.
-Não posso.
-Porquê? - A esperança acendeu-se no seu coração - Se é por amor, não precisas de me...
-Não é nada disso! Não digas disparates!
-Eu sei o que é. Gostas de alguém, mas esse alguém não te dá sinais...
-Já te disse para te calares, Aubrey!
-Eu também te amo.
David trava a carrinha a fundo, abre a porta e sai. Arrasta a porta corrida de trás; entra lá para dentro com fita adesiva na mão e tenta colá-la à boca de Aubrey enquanto diz - Aqui tens os teus sinais.
Aubrey desvia-se das mãos dele o melhor que pode e responde - Os melhores que me podias dar.
Pára de se desviar e, David, num ato de desleixe, aproxima a fita adesiva dos lábios dela. Estes abrem-se rapidamente e acolhem dois dos dedos do rapaz no seu interior.
Estes ficam feridos e David dá um passo para trás acompanhado de um grito súbito, mais por susto, do que por dor.
Aubrey ri-se, com sangue do seu amor a deslizar-lhe pelo queixo abaixo - Agora sim, estamos unidos por sangue.
O captor irrita-se e dá-lhe uma estalada na face que a faz desmaiar.
A sua respiração acelera e, com os olhos ainda vermelhos, procura observar o que a rodeia. Está dentro de uma carrinha, no espaço atrás dos dois lugares da frente. Ao volante encontra-se um homem encapuçado que a vai olhando de poucos em poucos segundos.
-Por favor, não sei quem é. Mas, por favor, deixe-me ir embora! Eu não digo nada a ninguém.
-Cala-te! - A expressão de reconhecimento marcou-se na face de Aubrey. - Para onde te levo também não vais contar a ninguém.
-Da...David, és tu?
-Cala-te! Já te avisei!
-Ah, és tu David. Não sei porque é que estás a fazer isto. Mas, por favor, deixa-me ir embora.
-Não posso.
-Porquê? - A esperança acendeu-se no seu coração - Se é por amor, não precisas de me...
-Não é nada disso! Não digas disparates!
-Eu sei o que é. Gostas de alguém, mas esse alguém não te dá sinais...
-Já te disse para te calares, Aubrey!
-Eu também te amo.
David trava a carrinha a fundo, abre a porta e sai. Arrasta a porta corrida de trás; entra lá para dentro com fita adesiva na mão e tenta colá-la à boca de Aubrey enquanto diz - Aqui tens os teus sinais.
Aubrey desvia-se das mãos dele o melhor que pode e responde - Os melhores que me podias dar.
Pára de se desviar e, David, num ato de desleixe, aproxima a fita adesiva dos lábios dela. Estes abrem-se rapidamente e acolhem dois dos dedos do rapaz no seu interior.
Estes ficam feridos e David dá um passo para trás acompanhado de um grito súbito, mais por susto, do que por dor.
Aubrey ri-se, com sangue do seu amor a deslizar-lhe pelo queixo abaixo - Agora sim, estamos unidos por sangue.
O captor irrita-se e dá-lhe uma estalada na face que a faz desmaiar.
segunda-feira, 1 de janeiro de 2018
Muitas Tarefas, pouco Tempo
No dia 4 de Fevereiro de 2013 deu-se uma explosão em Nova Jersey. Mais especificamente, deu-se uma explosão num prédio de lá. Está bem, só um dos quartos é que foi afectado pela explosão. No entanto, isso não a impediu de fazer um ferido.Tudo começou com um ligeiro ruído no meu subconsciente que me fez questionar as imagens com que me maravilhava. Depois, esse ruído foi aumentando de volume até que tudo o que restava das outrora imagens fosse uma bola de ténis a percorrer os diâmetros da minha esfera craniana. Quando me fartei do jogo de ténis, enviei, de forma selvagem, uma mão à mesa de cabeceira, derrubando tudo o que lá se encontrava, menos o meu inimigo. Com isto, ele subiu os parâmetros e juntou à de ténis, uma bola de basquetebol. Aí, já não me deixou outra opção senão: abrir os olhos e apanhar o desgraçado.
Levantei-me com um salto, agarrei no telemóvel - fazendo um esforço para não o quebrar, e desliguei o despertador.
Com um olhar de esgueira para o lado esquerdo, notei, através dos finos raios de luz que conseguiam passar pelo espaço que delimitava os diferentes níveis das persianas, uma figura fantasmagórica a observar-me, encostado à porta do quarto. Sorria de forma assustadora e irrequieta, enquanto segurava numa mão uma ampulheta que escorria areia e na outra, uma folha que eu sabia conter as minhas tarefas para aquele dia.
Se a explosão não o tinha sido, aquele fora o tiro que marcava o início da partida.
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