Após horas, dias e dias de viagem, finalmente cheguei ao meu destino, ao meu sonho.Fui esmagado logo à partida pela vegetação densa que me rodeava. Ouviam-se todo o tipo de aves que o meu panfleto turístico indicava. Desde... a... Bem, a verdade é que eu não sabia ler em Mandarim, o que significava que até o canto das aves parecia vir numa língua diferente.
Desde que saí do autocarro que quem me acompanhava era o vento e ninguém mais. Ah... e um senhor de idade avançada que começou logo, prontamente e de forma concentrada, a subir a enorme escadaria que se estendia pela minha frente.
Ali nada se obtia facilmente, nada se obtia sem esforço. Só para se ver o Templo, uma pessoa tinha de subir todos aqueles degraus. Isso só por si já era uma grande aventura.
Comecei a subir as escadas uma a uma como o meu mestre me tinha ensinado. Não queria chegar ao topo a ofegar, isso colocar-me-ia, aos olhos deles, na posição de um fraco. Mas, quando lá cheguei, estava de facto a ofegar e, para meu espanto, ninguém notou a minha chegada. Aquele conjunto de pequenos edifícios modestos parecia estar abandonado. Não se ouvia nem via ninguém.
Dei uns passos, rodeado pela história da China, até ver as primeiras pessoas. Procurei aproximar-me delas para me darem direcções. Contudo, concluí que deviam estar tão perdidos como eu, eram turistas.Ao passar por eles, troquei um sorriso com o jovem casal e prossegui a minha procura não só espiritual, mas agora também social.
Comecei por ouvir um ruído ao longe, como gritos assertivos humanos. Senti-me imensamente entusiasmado e procurei decifrar a sua origem. Ao seguir em frente, os gritos pareciam estar mais próximos. Aliás, pareciam estar mesmo ao meu lado. Olhei nessa direcção e notei numa pequena casa que não me era totalmente alheia. Entrei e percebi o porquê: nenhuma outra tinha o chão deformado e moldado daquela forma. Aquele era o famoso local onde os monges iam treinar para aperfeiçoar individualmente, mas acompanhados, as suas técnicas. Estavam acompanhados porque se fazia ouvir as vozes do passado, as vozes de todos os que ali haviam treinado. Eram esses os gritos que tinha ouvido.
Fechou os olhos, respirou fundo, e deixou-se embeber por todos aqueles sons de treino. Desde gritos a pancadas no chão até ao ar que era exalado quando executavam algum golpe. Até ordens se faziam ouvir.
Ordens? Isso já não fazia muito sentido. Fechou de novo os olhos e de novo ouviu. Ele não era tão imaginativo, aqueles sons eram reais.
Viu os dois turistas a passarem pela porta e saiu da casa para os abordar - Falam inglês?
-Sim.
-Ah, ainda bem. Não sou famosos pelo meu mandarim - Eles sorriram.
-Nós também não, apenas conhecemos algumas palavras - Disse ela.
-Pois...Por acaso não me sabem dizer de onde vem este som?
-Ao princípio, pensei que fosse da minha imaginação - Afirmou o homem.
-Exacto, também eu! - Ambos soltaram uma gargalhada.
-Mas agora penso que vem daí da frente.
Ela acrescentou - Mais vale irmos espreitar.
Anui e seguimos o breve trajecto até nos depararmos com o inimaginável. Estávamos no ponto mais alto e este permitia-nos contemplar a extensão dos campos de treino. Estes estavam cobertos por manchas amarelas e laranjas de monges de Shaolin a realizarem movimentos ao som das ordens dos mestres.
Sem comentários:
Enviar um comentário