quarta-feira, 31 de janeiro de 2018

A prisão do Olhar

Mostrei o meu bilhete de identidade para verem se tinha mais de 17 anos. Qualquer pessoa que me olhasse do outro lado da rua, dar-me-ia no mínimo 30. E de tão perto, com as marcas horizontais e verticais da idade, 40 anos.
O homem que me revistava tinha três vezes o meu peso, uma vez e meia a minha altura e, mesmo assim, justificou-se - É parte da obrigação, senhor - Não fosse um jovem de 16 anos maquilhar-se de modo a atrair as amigas da mãe ou de modo a parecer um pedófilo.
Ao entrar na discoteca, distingui melhor o ruído que a controlava. Era uma daquelas músicas ditadoras que nos obrigam a anuir para mostrar que nos estamos a divertir.
Enquanto passava pelo meio da multidão de adultos jovens, reparei em duas mulheres que andavam mais perto dos trintas do que dos vintes. Uma, mais baixa e a outra mais alta, abraçadas elegantemente, a dançar ao ritmo de uma balada romântica que apenas elas ouviam. A mais baixa, que tinha na sua posse o traseiro da outra, dizia algo que provocava o riso.
Desviei a minha atenção daquela cena encantadora e procurei o autor dos atentados sonoros. Encontrava-se numa esbelta torre, um pouco acima do nível da pista de dança. Se ele fosse dotado de alguma inteligência, o que devia ser - visto que pagavam para entrar na discoteca enquanto ele recebia - então os auscultadores dele isolá-lo-iam das marteladas que tocavam para controlar a multidão de jovens bêbados.
Eles estavam bêbados e eu precisava de uma bebida, não havia outro modo. Encostei-me ao balcão e gritei ao empregado por um martini rosso.
Olhei em volta à procura de refúgio, à procura de outra personagem. Não demorou muito. Na zona vip, os tons de branco e bege não destoavam, mas o que o fazia era o excesso de roupa, os óculos para ver ao longe e, claro, o olhar atento na direcção de um casal que estava ao meu lado, enquanto apontava algo num bloco de notas. Ela envergava uma saia bege de cabedal, uma camisa branca coberta por um casaco, também ele bege e de cabedal.
Tinha as pernas cruzadas e os ombros contraídos de concentração, o que fazia com que os seus cânones estivessem expostos como quando um quadro está a dar os primeiros passos. O seu cabelo loiro, esticado e preso e o batom vermelho que coloria os seus lábios faziam com que dificilmente um homem passasse ali sem nela notar.
De súbito, virou a cabeça na minha direcção e os nosso olhares prenderam-se. Em 42 anos de existência, nunca um olhar me aprisionou, nunca um olhar me despertou daquela maneira. O verde dos olhos dela levou-me para um mundo aparte, um mundo em que o nosso corpo fundido, o crepitar da lareira e a suavidade do tapete de peles, reinavam. Ela subitamente voltou a atentar ao casal e eu segui-a.
O rapaz parecia concretizado. Por vezes, dizia algumas palavras ao ouvido da rapariga, e no resto do tempo, olhava em seu redor, nunca reparando em quem o observava.
Ela, por outro lado, estava aborrecida, e sempre que ele se tentava aproximar, distanciava-se. Para a idade, tinha umas linhas atraentes, mas nada que se comparasse à outra. Queria-se afastar dele, isso era berrante. Mas não o podia por alguma razão. Talvez a observadora a soubesse. Virei a cara e nada vi, a cadeira estava vazia.

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